Seamus Haji no ProDJ Talks

Seamus Haji

Seamus Haji no ProDJ Talks

No dia 3 de Maio estreamos no canal de YouTube da ProDJ a entrevista a Seamus Haji, A&R da Defected. Porque a conversa tem muito conteúdo de valor, tanto para artistas como para profissionais da indústria, decidimos publicá-la aqui. Boa leitura! 

O Seamus é o A&R da Defected e hoje vamos descobrir mais sobre o trabalho dum A&R. A&R significa Artistas e Repertório que são, provavelmente, os bens mais importantes duma editora. Sei que és artista e DJ. Como pensas que a tua experiência prévia te dotou com as ferramentas necessárias para ser A&R duma editora tão importante como a Defected?

Sim, DJing e produção. Quando tocava no meu quarto estava sempre a misturar e a fazer scratch, e estava também a criar os meus mashups e, sabes, penso que me ajudou quando cheguei ao A&R porque… A&R é obviamente “Artistas e Repertório”, por isso lidas com o artista e com o repertório, por isso muito do tempo, se estás mesmo a trabalhar a área, significa que estás a colocar produtores a trabalhar com songwriters e cantores e a fazer aquelas colaborações acontecer. Por isso, penso que de uma forma rudimentar quando estava a misturar discos no meu quarto, muitas vezes estava a usar acappellas de discos antigos dos 80s ou 70s e a pô-las sobre discos que eram dos 80s, ou do fim dos 80s e início dos 90s, numa espécie de modernização daqueles discos. Estava, creio, a fazer remisturas ao vivo e quando comecei a produzir, continuei a fazer muito isso. Sabes, quando fiz o “Last Night A DJ Saved My Life”, foi preciso tirar uma velha acappella dos 80s e pô-la sobre um disco muito mais moderno, e remisturá-la. Por isso entrar na produção foi algo muito natural, e quando se trata de ser A&R, tens evidentemente as capacidades de um DJ, sabes o que funciona numa pista de dança, por isso sabes como é que os discos devem estar dispostos e o que queres ouvir enquanto DJ, tal como quando chegas à produção, e a ideia de produzir música e tentar ser criativo e fazer com que ela funcione. Por isso acabei por compor musica original e por ter canções originais colocadas sobre tracks. Foi uma progressão completa.  Por isso, sim, tudo isto me ajuda quando se trata de ser A&R.

O que Faz um A&R?

Gostava de ir um pouco mais em profundidade no tema, isto porque a audiência mais jovem e os estudantes da área, que são a nossa audiência, não creio que eles saibam o que faz exactamente um A&R. Um A&R escolhe os artistas e a música que entra num catálogo duma determinada editora.

Sim.

Então como é que consegues fazer isso tentando ser coerente com uma visão estética. Musical, claro, duma editora como a Defected?

Penso que… sabes, estás no momento, por isso o que quer que se esteja a passar na música, és sensível a isso. Por isso, se ouvires discos que saíram na Defected agora e os comparares com, talvez, os de há dez anos, ou se os comparares com os de há vinte anos, quando eu comecei a trabalhar na editora, obviamente que o som mudou e evoluiu. Sabes, há vinte anos estávamos a editar muitos discos que vinham da América. Muitos discos de disco house, discos como Soul Search, Can’t Get Enough ou Powerhouse – What You Need, e estes discos eram como eram. Não precisávamos de muito para fazer estes discos. Podíamos lançá-los e eles entravam nas pop charts de Inglaterra, sabes, porque era isso que se estava a passar. Dez anos mais tarde tivemos uma grande mudança e obviamente estava a acontecer toda a cena EDM também, e isso mudou o mercado. E agora as coisas voltaram a mudar, e as pessoas querem house e disco e disco house outra vez, por isso é uma boa mudança, e nós podemos voltar a fazer o que estávamos a fazer há muitos anos, mas ao mesmo tempo, temos que o fazer a olhar para a frente, sabes? Mas um A&R a sério, pode tanto pegar em discos que são atuais. Ou o que fazemos muitas vezes é criar música, falas com o produtor e dizes: “OK, faz uma música”. Assim que tenho uma base musical com a qual estou satisfeito, então posso dizer, Ok, sabes? Posso ir buscar um songwriter para esta música. Pode acontecer que o songwriter também canta, ou então cria uma guia vocal e vamos à procura dum cantor, ou um artista, para colaborar na música. Há muitas maneiras de abordar o trabalho.

Catálogo e Temas Clássicos

O que penso ser também muito interessante é o facto de teres que equilibrar a história e, claro, o catálogo incrível que já tens na editora, com o que está a acontecer musicalmente hoje. E acabas de conseguir os direitos de um dos grandes êxitos do início dos anos 2000, “Groovejet” de Spiller, que me lembro de ver sair. Foi um enorme êxito mundial. Vai ser reeditado este Verão e acompanhado por remisturas, pelo que li. Tens outras canções, outros clássicos, que gostarias de acrescentar ao catálogo da Defected?

Há discos que temos e depois às vezes os termos expiram, por exemplo. Podemos licenciar o disco por dez anos. Acabámos de fazer isso com um disco, o “It’s Yours” do Jon Cutler, que tem vinte anos. Por isso renovámos os direitos, e é um disco underground, mas por exemplo, se fores ao Spotify vês que já tem cinco milhões de streams. Por isso é fácil de ver o dinheiro que está a entregar, e isto ainda sem levar em conta outras plataformas como a Apple Music e o Deezer, e outras. Por isso discos que conheces – e não me importo de dizer isto porque, por vezes, há discos que adorávamos ter mas não acontece por causa de quem é dono dos direitos – que podem ser um êxito. Escrevi alguns exemplos, o “Salsoul Nugget” dos M&S: um grande amigo meu, o Ricky Morrison, foi um dos produtores desse disco. Estamos a falar de há vinte anos atrás. Ele recuperou os direitos desse disco. Está a fazer bons números, na ordem dos cinco milhões de streams neste momento, e para podermos fazer o negócio teríamos que pagar muito dinheiro pelo licenciamento, e se ele já o está a receber, está a fazer um bom negócio. Mais dois discos que escrevi: um é “It Just Don’t Do” do Tim Deluxe, que é outro amigo meu, e sabes, trabalhávamos juntos em lojas de discos antes dele fazer aquela música. Ele recuperou os direitos da editora há bastantes anos. Se fores ao Spotify tem cerca de quinze milhões de streams, e ele tem os direitos da música. Por isso ele não precisa de nos licenciar a música, porque além dos streams haverá outras oportunidades, como sincronia, sobre a qual provavelmente falas aos estudantes, o que significa que pode ser usada em TV, rádio ou cinema. É um desses discos e ele faz bom dinheiro do seu catálogo. Tivemos uma conversa com ele e era muito dinheiro.  E mais um, que não me importo de te dizer, porque está a correr muito bem é o Black Box. E como sabes há o “Ride On Time”, e há outros temas como o “Everybody Everybody”. E tivemos uma conversa óptima com o Daniele Davoli, um dos produtores. Por exemplo, o “Ride On Time” tem cerca de 35 milhões de streams no Spotify neste momento, e falámos com ele e assim que fomos ver em conjunto, descobrimos que o dinheiro que ele faz por ano dos streams e do publishing e oportunidades de licenciamento, foi tipo, está a correr muito bem por isso não podemos ficar com a música. Teríamos que pôr muito dinheiro na mesa e somos uma editora independente. Por isso não fazia sentido. Há mais discos, como sabes estamos sempre de olho nos discos. Por isso há outros que não te vou contar mas, vamos ver, estamos sempre a tentar, sim. 

A Importância das Remisturas

Ao mesmo tempo, quando editas em disco que foi, ou é um êxito porque continua a acumular streams nas plataformas, também tentas trazê-lo para a sonoridade de hoje através das remisturas. Por isso faz sentido reavivar um tema através de remisturas e penso que é essa a intenção com o “Groovejet” do Spiller, certo?

Não te vou dizer ainda quem é que vai remisturar. Ainda é top secret, mas lançámos um tweet a dizer que tínhamos ficado com os direitos e fomos inundados de mensagens de pessoas a dizer que adoravam remisturar, etc etc. Incluindo alguns nomes grandes. Ficámos muito surpresos. Por isso é nisso que estou a trabalhar neste momento. E vai ter duas partes.  Vamos fazer mixes na Defected e na Glitterbox, mas, sim, penso que se vais fazer remisturas tens que ser sensível ao projecto.  Recentemente adquirimos os direitos perpétuos de um disco, um clássico do disco sound chamado “Cathedrals” de D.C. LaRue, que como sabes é um monumental disco clássico. Fizemos uma boa oferta pelo tema. E nas remisturas só fizemos vinil. O digital sairá em breve. Vai sair numa nova editora que temos chamada Faith. E, de novo, fomos totalmente fiéis ao tema original. É um clássico antigo do disco sound. Não é o caso de agarrar nele e fazer a quantização para que encaixe. As pessoas que fizeram as remisturas receberam os stems mas foram sensíveis ao tema original, por isso não tentaram quantizá-lo ou ir pelo feeling. O tempo original flutua como um disco sound flutuaria. Por isso, o Jaime 3:26 fez uma remistura. O Maurice Fulton, Dave Jarvis e o Terry Farley da Faith também remisturaram, e há um edit do Greg Wilson. Por isso mantivemo-nos muito sensíveis à natureza do disco. E depois há outros discos que fizemos. Sabes que que ficámos com o Junior Jack presents Glory, “Hold Me Up” com a Jocelyn Brown, e que neste podíamos levá-lo para uma direcção mais clubbier, com o Riva Starr e o Ferreck Dawn na mistura, e também com o Michael Gray. Nós cobrimos muita coisa, um tema meio pumping disco do Riva, Michael Gray, um pouco mais nu disco, e depois Ferreck Dawn, sabes, mais para os puristas do House.

Podes levar alguns discos em diferentes direcções. Não vais ter uma mistura do Ferreck Dawn num disco como o “Cathedrals” de D.C. LaRue. Manténs-no na área dos aficionados do Disco. E depois com Spiller, sabes,  há muitos caminhos que podemos tomar.

Vais ver, temos algumas misturas excitantes a sair em breve.

Demos: Quantas Recebe um A&R por Mês?

É interessante o que disseste, que no momento em que publicam um tweet acerca do “Groovejet”do Spiller, foram inundados com pedidos para remisturá-lo, o que faz todo o sentido. Qualquer grande nome que trabalhe há 20 anos lembrar-se-á da dimensão do hit que esse tema foi, o que me leva à próxima questão,  que é algo que a maioria das pessoas não tem qualquer ideia, quantas demos recebes por mês? Peço-te apenas uma estimativa, claro.

Eu tentei mesmo chegar a uma resposta, oh é difícil. Eu penso que ao longo do mês, penso que andará entre 500 e 1000.

Conselhos Para o Envio de Demos

Isso é muito, porque por vezes as pessoas não entendem porque é que enviam demos às editoras e não recebem resposta, e eu penso que tem a ver com o volume. Isto por um lado, e por outro lado, claro, algumas pessoas poderão estar a enviar demos que não fazem nenhum sentido para essa editora. E gostava de ouvir-te acerca deste assunto, quantas demos recebes? Quantas recebes – é sempre uma estimativa – que não se enquadram na linha estética da editora, e que tipo de conselho darias aos produtores musicais e artistas em geral antes de enviarem a uma editora? Aconselhar-los-ias a fazer o seu trabalho de casa e ir ouvir o que a editora realmente lança, de modo a terem a certeza que o que estão a enviar é, bem, um certeiro como de um sapato de Cinderella para a editora? Ou gostas de ser surpreendido?

Já respondeste à questão, e penso que para ir ainda mais longe, sabes, por exemplo, se eu recebo um email que não me veio endereçado, apago-o. Então, é só porque muitas vezes parece que é enviado para muitos recipientes, é apenas um email genérico, e é tipo, enfim! E até algumas vezes… Ainda recebi um na semana passada que vinha endereçado para mim e, talvez, 5 outras editoras. Na realidade no topo do email dizia para mim e depois para… e eu apaguei-o, sim, porque não demonstra… tu tens que mostrar à editora para onde estás a enviar, que queres mesmo assinar com essa editora, e que estás a enviar especificamente música não só àquela editora, mas também à pessoa com quem devias estar a falar. Por isso penso que, sim, tens que descobrir quem. Não há desculpa para não descobrir quem é o A&R. É muito fácil, independentemente se envias email ou telefonas, dizes apenas quem é o A&R, descobres o seu email, e quem estiver na recepção, eles terão todo o gosto em dar o email dessa pessoa, apenas porque eles não recebem as demos bem, quem está na recepção ou no atendimento não está interessado, então dirão, OK, envia-o exactamente para quem é suposto. Eles sabem fazer o seu trabalho. E depois, claro já sabes, não fiques desiludido se não tiveres uma resposta dessa pessoa. Mas tens que ir atrás. Mas voltando ao que disseste acerca do que deves fazer antes de enviar a música, e de fazeres a pesquisa para que seja a editora certa. Eu acho que a primeira coisa que deves fazer é ter a certeza de que é suficientemente boa, tipo toca-a para os teus – não só tocar para os teus amigos e família e pessoas que gostam de ti, e que vão dizer-te que é ótima. Queres tocá-la para outros DJs, ou se estás numa escola de música, essa é uma oportunidade perfeita para tocá-la para os teus pares e pessoas que devem dar-te um feedback honesto. Os teus professores de música também, se és um professor de música, então é óbvio que deves dar um feedback honesto aos alunos, não deves dizer, oh está ótimo bla bla bla.

Então obtém feedback sobre a tua música. Estás numa posição brilhante, porque também irás… quero dizer, quando as coisas abrirem, agora estamos numa pandemia, mas provavelmente tens pessoas a fazer visitas e oradores convidados. Entende isto,  tenta obter a informação destas pessoas, tenta obter o feedback deles sobre a tua música. E se puseres talvez, não sei, podes por uma demo no Soundcloud ou algo semelhante. Também podes obter o feedback de pessoas assim. Tem a certeza de que tens o feedback certo de pessoas antes de fazer qualquer coisa com a tua música, e isto pode significar várias tentativas até estares realmente numa posição onde podes realmente enviar esta música à editora.

Tens aí ótimos conselhos.

Sim, espero bem que sim!

Especialmente com o email para cinco A&Rs, ou undisclosed recipients, só pode ser apagado.

Terrível. Ou mal enviado. A questão é, se envias a música errada à editora errada, se eu recebo algo e tem o meu nome, tipo OK, deixa lá ver, e tu tocas, e depois é completamente a música errada, se eu algum dia receber um novo email dessa pessoa, não a vou ouvir, porque é tipo, eles estão a enviar a música errada à editora errada.

Exactamente, e as pessoas precisam de ouvir isso, para saberem que têm que ser responsáveis pelo que enviam aos A&Rs.

Sim.

A Estética Musical da Defected

Como definirias a estética musical da Defected? E isto é um pouco difícil, porque estamos a lidar com um catálogo que tem muitos discos clássicos e preciosos, mas também se está a mover em novas direcções e sonoridades. Então, como a definirias?

Penso que o fio condutor é que gostamos de discos vocais. Esse é o fio condutor. E isso não desaparece. Desde o momento em que comecei a trabalhar na editora em 1999, era o mesmo nessa altura, tal como o é agora. Lançamos discos vocais. Então pode ter havido um momento em que algumas pessoas julgaram que os discos vocais não estavam na moda, mas sabes, quando tens um disco vocal podes fazer tanto com ele. Tem tão mais longevidade. Não é só lançar o que nós chamamos “faixas de fim-de-semana”, tal como quando os DJs iam às lojas de discos, compravam os discos mais recentes, e eles tocavam-nos por uns fins de semana, e depois passavam a ser mais um. Então muitos desses eram descartáveis. Mas nós tentamos lançar música que tenha longevidade, e quando tens uma grande canção, especialmente quando lançamos discos, quando assinamos discos, nós tentamos assinar discos para a perpetuidade, então para o copyright vitalício, porque investimos muito na promoção e no marketing dos discos. Não há muito dinheiro a ser feito pela venda de discos, e o DJ ou produtor ou artista vai ser beneficiado no que diz respeito à sua vida, e nós não estamos a receber uma parte disso, então nós tentamos assinar, bem isso é o que fazemos, nós tentamos assinar discos com copyright vitalício, e isso também significa que podemos voltar e revisitar esses discos passados 10, 20 anos.

Se é uma grande canção nós podemos voltar atrás, tal como “Finally” de Kings of Tomorrow. ou algo semelhante. Penso que isso é o que joga a nosso favor, e penso que esse é o fio condutor. A música pode mudar. Suponhamos que tínhamos assinado a “Finally” dos Kings of Tomorrow há 20 anos, e depois fazemos um flashback para talvez há 5 anos atrás. Um disco como o “Cola” dos Camelphat, musicalmente são discos completamente diferentes, e muito adequados ao seu tempo, mas são ambos grandes vocais, então como que transcendem o seu género. No final, é apenas um grande disco. É apenas um outro grande disco de dança que muitas pessoas diferentes vão gostar apenas porque é um grande disco.

O Que Procura A Defected?

O que é que a Defected procura musicalmente, mas também estava a pensar quais seriam os teus momentos “uau”, quando estás a ouvir um tema e pensas “uau, isto é fantástico”. É apenas a música ou a música mais o artista que têm o potencial para crescer? O que entra na mistura destes momentos “uau”, se preferires?

Bem, quer dizer, por vezes tal como foi com Camelphat, inicialmente esse era um disco instrumental, e eles foram combinados com diferentes singer-songwriters e obviamente um deles foi o Elderbrook, e aí aconteceu a magia do “Cola”. Mas mesmo quando isso aconteceu inicialmente, não foi tipo, todos têm a certeza acerca dele, porque era tão diferente. Mas havia alguma coisa. Havia como que magia, sabes. E por vezes podes ouvir um disco como… há um disco que eu apanhei chamado “Armaghetton” do Marco Farone e Greeko, que é, para todos os efeitos, um disco de hip house. É um disco de house com alguém a fazer rap por cima. Mas é muito mais moderno do que hip house que talvez estivesse a sair há 30 anos atrás, e havia algo acerca dele. Soava realmente diferente. Era como um grande groove. Então a música é ótima, e depois tem um vocal realmente único em cima, e funciona. Então tens aquela combinação, entendes, e por vezes o disco, se é um disco instrumental, é apenas um grande disco instrumental, é tudo que precisa de ser, e vai funcionar assim como está. Mas presumo que por vezes com discos, para passar ao patamar seguinte, quando falamos de airplay na rádio e realmente fazer o crossover precisas do vocal. Precisa de mais a acontecer, então por vezes é apenas instinto, e noutras assinas um disco e ele ganha vida própria, pode apenas rebentar sem tu realmente saberes que ia acontecer, e apanha-te de surpresa.

Humildade na Música

Isso é uma coisas que mais gosto na indústria musical, é que é habitual dar-te lições de humildade a toda a hora, porque, por vezes, músicas que pensavas que não tinhas quaisquer expectativas, depois explodem, e tornam-se um grande hit. Penso que é um modo de nos fazer perceber que não podemos realmente antecipar o que uma música vai ser.

Não, não, não, e muito regularmente, é o contrário, tipo assinas discos a pensar que vão ser grandes, que vai ser um hit, e depois não bate. Isso é o que acontece normalmente.

Isso é algo que realmente aprecio na indústria musical. Quando recebes uma demo que achas que não se adequa à Defected, encaminha-la para outra pessoa na equipa, ou pensas, faz o trabalho de casa e envia-a ao A&R indicado?

Bem, porque é uma equipa grande… Quer dizer, olha, por vezes as pessoas enviam coisas às pessoas relevantes, e penso para que mim também, mas falando da minha opinião pessoal, se eu recebo algo, mas não é exactamente indicado para mim, eu ainda o ponho a tocar para a equipa. Nós juntamo-nos enquanto equipa de A&R e tocamos temas, e é tipo, isto é mesmo bom, não é apropriado para mim, mas pode ser para a tua editora. Então pode ser perfeito para música clássica ou outra qualquer. Portanto nós tentamos fazer isso. Por vezes algumas coisas podem cair nos intervalos. Talvez alguém não ouça algo, mas sabes que se pensares para lá de ti e do que estás a fazer neste momento, na realidade pode ser bom para uma das outras labels, entendes. Então nós tentamos fazer isso, essa é a ideia, de tocarmos coisas em equipa, e isso pode ser, bem isto talvez não seja adequado para estas labels, mas pode ser bom para a Nu Groove, e nós fizemos isso em que, ficamos com a editora Nu Groove há anos, que é obviamente uma nova editora lendária. É apenas aquisição de catálogo, nós temos quase todo o catálogo dessa editora. Mas depois recebemos alguns temas… Temos uns temas do Jovonn, que é um herói do house undergroung de Nova Iorque. Temos dois temas do Deetron, que é obviamente um tipo mais novo, e gostamos realmente dos temas, e estávamos a pensar onde é que se deveriam encaixar. E depois o Simon Dunmore disse, bem na realidade, estes podiam encaixar-se na Nu Groove, e nós, oh então nós não tínhamos considerado assinar novos discos para a Nu Groove, mas porque temos a Nu Groove, e é uma grande editora, tem uma grande herança, tem um grande logo, podemos fazer merchandising e promover a marca e desde que lançamos, sabes, dois temas pelo Jovonn e pelo Deetron, agora temos outras pessoas a contactar-nos. Então, o Harry Romero enviou uns temas. O Oliver Dollar também fez uns temas com um nome artístico diferente. Sim, as pessoas estão a contactar-nos com música nova para essa editora porque adoram o selo. Lembram-se dela no passado e se o som for o certo… Poderia ter sido, talvez estivessem a pensar em música clássica na Defected, é tipo, bem não é completamente indicada para essas editoras, então agora é ótimo ter todas essas saídas para diferentes sonoridades, compreendes?

A Inovação na Música Importa?

Qual é a importância da inovação quando estás a ouvir música nova? Porque estamos sempre a dizer nas aulas que os alunos devem ser inovadores e que procurem o seu próprio som, o que sabemos que é mais fácil dizer do que fazer. Pelo que pensei, é claro que ninguém quer ouvir o segundo “Groovejet”, porque isso não faz sentido. Portanto, como abordarias a questão da inovação na música?

Eu acho, até é bastante engraçado, por vezes queres a segunda versão. As segundas normalmente ainda passam. Sim, é engraçado, como a “Groovejet” de Spiller, e depois tens a “Salsoul Nugget” de M&S, que foi a segunda que se deu muito bem, e depois tiveste a “Music Sounds Better (With You)” de Stardust, e depois tivemos a “Turn Around” de Phats & Small, que também se juntaram. Por isso, por vezes, podes fazê-lo com o segundo disco, mas depois de o fazeres é difícil seguires esse registo, pelo que se fazes um disco que é um tipo de cópia… não uma cópia, mas inspirado num outro disco, é difícil. Por isso tentar encontrar o teu próprio som, sim é mais fácil dizer do que fazer. Eu penso que, sabes, se estás a começar a produzir música, a coisa mais importante é escolheres um caminho. Algumas pessoas são diferentes. Existem algumas pessoas que conseguem fazer imensas sonoridades diferentes, e fazem-no muito bem, e são DJs, e conseguem equilibrar tudo, mas não há muitas pessoas que o consigam fazer. Normalmente tens que escolher um caminho. Tens que dizer, OK, este é o caminho que vou seguir, e este é o tipo de som que quero produzir, para não confundir as pessoas. Isto é, especialmente, sabes, eu dei algumas palestras deste tipo antes. Tens alguns alunos, e eles estão a fazer drum & bass, e estão a fazer house, e estão a fazer tech-house, e estão a fazer hip-hop, mas é tipo, OK, isto é – estás a fazer demasiadas coisas diferentes. É ótimo fazê-lo para descobrir e escolher o teu caminho, mas ao avançares será muito difícil fazeres isso tudo. Por isso, se te mantiveres pelo menos numa área, independentemente de ser house, ou techno, ou drum & bass, está ótimo, tal como qualquer outro. Foi o que fiz quando comecei. Tu imitas pessoas que te inspiram, portanto, tentas fazer discos com a sonoridade dessas pessoas. Mas o problema é, que se o fizeres, vais acabar por encontrar a tua sonoridade, porque o que quer que tu faças nunca vai soar exactamente igual a essa pessoa.

Sim, os músicos também começam por aprender, tocar músicas de outros, e depois tentam encontrar o seu caminho nesses processos. Pelo que a questão não é que copiar tem algo de errado. É apenas que tens que evoluir mais para além, nesse sentido.

Sim, é preciso alguma inspiração, talvez aproveitar um arranjo daqui, ouvir como as pessoas fazem arranjos, talvez tirar alguns sons daqui, e não tentar copiar completamente a sonoridade da produção de uma pessoa, entendes o que quero dizer? Mas podes ir buscar inspiração, e uma vez que o comeces a fazer, então já tens uma paleta sobre a qual podes trabalhar, e depois podes como que criar o que é o teu som.

Produtores: Um Género ou Vários Géneros?

Vou aproveitar algo que disseste, acerca de no início os produtores tentarem mover-se num espectro de géneros, e fazerem um pouco de tudo, e talvez não se especializarem num estilo. E por vezes é difícil discutir com eles, e explicar-lhes porque é que deves focar-te em algo. Podes elaborar um pouco sobre isto?

Em última análise, se queres lançar música por ti ou por uma editora, ela terá de que ser comercializada, terá que ir para algum lado. Terá que encaixar numa caixa, quer queiras ou não, terá que ir para algum lado. Terá que ser defendida por alguém ou por pessoas que gostam do que fazes. Tem que ir para algum lado, entendes. Se preferires de outra forma, sabes, há algumas pessoas como Redlight, que faz house, mas também faz a cena bass onde faz drum & bass, mas faz o drum & bass com um nome artístico completamente diferente, percebes. Por isso podes fazer isso, ter digamos, duas sonoridades sob nomes artísticos diferentes, mas em última instância, sabes, quando pensas em fazer música nestes tempos, passa pelo live, porque podes, dependendo do tipo de música que fazes, a não ser que seja muito comercial, algo mesmo crossover, a tua carreira e o teu vencimento podem ser baseados em performances ao vivo. Portanto tens que ser promovido e comercializado nessa esfera, e sabes, se tiveres 5 nomes artísticos, vai ser difícil agendar onde podes ir actuar ao vivo como 5 pessoas diferentes, entendes. Talvez te safes se tiveres dois nomes artísticos. Em última análise, uma, tens apenas uma marca forte, e isso é o que és, e podes ter alguém a fazer o management, e alguém a tratar dos bookings, mas é isso. De outro modo será muito difícil. Apenas se estiveres num cenário de banda, tal como sei lá, os Rudimental, que podem fazer coisas que são house que são talvez dubstep, que são drum & bass, isso já é diferente, percebes, isso já é outro campeonato. Mas não há muitos projectos desses.

Não há muitos projectos desses. 

Não.

A Defected e o Futuro

A Defected tem estado bastante activa a trabalhar o futuro, e o que quero dizer com trabalhar o futuro é a recente parceria com o Twitch, e também o radio show na SiriusXM. Como equilibram o ser uma label histórica com um catálogo fantástico, com o ser uma label actual com os olhos postos no futuro? Como equilibram as duas?

Temos que estar atentos à tecnologia moderna. Isso é muito importante. Então eu acho que, bem tu sabes, na Defected, temos uma equipa grande. Temos entre 40 a 50 pessoas dependendo da altura do ano, e de que eventos estão a acontecer. E há pessoas em todos esses diferentes departamentos que são especializadas na sua área. Pelo que temos pessoas que são especialistas em redes sociais, e ideias progressivas de negócios, e estratégias de negócio, e todas essas coisas, e felizmente eu não tenho que me preocupar com essas coisas, e eu só me preocupo em assinar discos, e isso é o que adoro fazer. Pelo que, neste caso, quando a pandemia começou, e nós fomos rápidos, nós fomos tipo OK, só para saberes, mais ou menos nesta altura no ano passado, viemos todos embora do escritório, e no espaço de uma semana foi anunciado que íamos fazer um festival em livestreaming, o que fizemos no Ministry of Sound. E o Glitterbox à distância de uma, pelo que estava organizado. Nós trouxemos os DJs, e tentamos tomar precauções em como o fazer, e nessa altura ainda não sabíamos muito bem, ninguém sabia as restrições que iriam entrar em vigor quanto ao distanciamento social, mas agimos logo e angariamos fundos. Portanto não foi, nós não o estávamos a fazer para angariar fundos para nós, foi completamente, OK, vamos angariar fundos para o Serviço de Saúde Nacional. E no global, acredito que com todos os livestreams que fizemos, angariamos meio milhão de libras, e fizemo-lo em colaboração com a Google, que disseram que iriam igualar esse valor, mas igualaram-no em dobro. Por conseguinte, acredito que foram angariados algo como 1.5 milhões, o que foi fabuloso. Desse modo, sabes, só estávamos a tentar ser pro-activos, a manter a nossa audiência ligada, a tentar manter a moral das pessoal alta, e a tentar manter algum positivismo, e ao mesmo tempo a angariar dinheiro para uma boa causa, e o resultado para nós foi apenas manter o envolvimento com as pessoas. Também fez com que – não nos apercebemos realmente disto – mas reflectiu-se nos nossos seguidores online, sabes. Isso aumentou muito no último ano. Por isso, um pequeno bónus para nós, e agora estamos aproximadamente nos 7 milhões, contando com todas as nossas plataformas.

Por isso, isso foi um dos meus apontamentos: acompanhar a tecnologia moderna. A audiência está sempre a mudar, então tens que encontrar novos meios de estabelecer relação com eles, entendes. Quer dizer, eu não uso Twitch, e eu não uso Snapchat, mas não, eu uso todos os outros. Mas sabes, os meus filhos, bem um dos meus filhos, ele não está em nenhuma rede social, acredites ou não. O outro, está em todas, e está no Snapchat. Pelo que tens que encontrar estes novos caminhos, e obviamente que o Twitch, utilizado pelos gamers, pareceu uma boa oportunidade para ser usado para música. E isso resume-se, tal como disse, cabe à nossa equipa, e ao nosso tipo que chief business manager, e a este pessoal encontrar novos caminhos de nos ligarmos com as nossas pessoas, e comercializar o que fazemos, e encontrar as parcerias certas.

Eventos Where Love Lives

Pedimos à comunidade de alunos algumas questões, e esta é do André Garcia, um dos nossos alunos. Ele quer saber mais acerca do documentário “Where Love Lives”. Quem querem alcançar, e há planos para fazer algo global? Porque a mensagem é tão importante, vai haver um festival inspirado nas “Glitterbox Nights”?

Certo, OK. Quem é que nós gostaríamos de… Eu acho, olha, nós gostávamos que alcançasse, sabes, toda a gente. É um documentário verdadeiramente espantoso, e é realmente espantoso pensar onde estamos agora, comparando com, sabes, quando eu era jovem. Nós estamos a ir muitos anos atrás, e as pessoas são muito mais tolerantes, sabes. Os meus filhos terão uma mente mais aberta do que eu, e eu gostava de pensar que eu tenho uma mente mais aberta do que os meus pais, e do que os seus pais. Então a um nível universal, sim, nós gostaríamos de alcançar o máximo de pessoas. Penso que pode ser muito pedagógico para as pessoas, realmente surpreendente, e sabes, é ver, é forçar-te a ver algo da perspectiva de outra pessoa, porque se não estás na mesma situação, se não caminhaste o mesmo caminho, não tens ideia de como é. É muito fácil falar, fazer suposições acerca de pessoas, mas no fim do dia, não sabes como é estar na sua situação. Nós abordamos obviamente, ele aborda muitas das situações LGBTQ+, e experiências, sabes, não é feito de um modo cínico. Eu penso que o que fizemos num documentário foi em vez de nos focarmos apenas nos DJs, focamo-nos nas pessoas que o fazem acontecer: os bailarinos, e as pessoas na pista de dança, sabes.

Sim, mas também relacionado com a mensagem que sempre esteve presente na música electrónica desde os primeiros tempos, de inclusividade, da pista de dança ser um espaço aberto a todos, e que somos todos iguais na pista de dança. Pelo que eu penso que não é só – é para todos, é uma mensagem de diversidade e inclusividade que não, apesar de que acredito que as gerações tendem a ter uma mente mais aberta, tal como disseste, eu também penso que há o retorno de coisas que não desejávamos que voltassem, e temos isso com todos os movimentos de direitos, e movimentos populistas, portanto eu penso que é muito apropriado relembrarmos todos os que gostam de música electrónica, quais são os valores desta cultura, e considero que o vosso documentário o faz.

Bem, nós lançamo-lo no Youtube. Sim, quer dizer, olha se eu voltar aos tempos quando comecei a sair à noite, e a ser DJ, eu também saía nos meados dos anos 80, e se pensares nisso, bem para mim era o único sitio onde encontravas esta mistura de pessoas, fossem miúdos ricos, miúdos da classe trabalhadora, sabes, estudantes, gays, misturados, o que fosse. Era, e todo o tipo de raças e credos. Era tipo, estás lá por uma razão. Estás lá apenas pela música.

Sim. E para dançar!

Sabes que estás lá pelo amor à música, é por isso que estás lá. Por isso une as pessoas, e depois começas a conhecer pessoas que provavelmente não conhecerias no dia a dia, e falar com elas, e entendê-las, e depois muda a tua perspectiva. E dá-te uma visão mais abrangente, e torna-te mais compreensivo e…

Empático!

Sim, exactamente, com a sua posição em relação a coisas. E é isso que acontece. De outro modo, eu não estou a ver onde realmente acontece. É aí que ocorre, entendes. 

Sim. Penso que é um tema fantástico para terminarmos a nossa conversa. Eu quero mesmo agradecer-te porque acho que isto é na realidade uma masterclass!

OK, ótimo.

Sim, muito obrigada, muito obrigada. Continua a fazer um trabalho formidável, e nós continuaremos a ouvir os lançamentos da Defected, música e documentários, e tudo.

Muito obrigada Seamus.

Podes rever a entrevista em vídeo . Se queres saber mais sobre Seamus Haji, lê aqui notícia que publicámos. 

Sobre o autor /

sonia.silvestre@gmail.com

Editora, de 2000 a 2011, da revista Dance Club. Durante mais de uma década escreveu e entrevistou muitos DJs e produtores de todos os géneros musicais, de Carl Cox, Erick Morillo, Todd Terry, David Guetta, a Dubfire, entre muitos outros. Escreveu para outras revistas e publicações, como a inglesa Musik. Em 2008 foi convidada para moderar o único painel sobre a cena electrónica portuguesa no Amsterdam Dance Event, o Focus On Portugal. Integrou a WDB Management, onde exerceu como Brand Manager até ao final de 2018. Durante este tempo participou na gestão de carreiras dos artistas no que toca à comunicação, promoção, gestão de patrocínios e a relação com as editoras. Fez parte da equipa em eventos como: a One Last Tour dos Swedish House Mafia em Lisboa; as duas datas do I Am Hardwell em Lisboa; o Mega Hits Kings Fest; e o RFM Somnii, de 2012 a 2018, entre outros. Em 2019 começou a trabalhar directamente com os artistas e é Manager.

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